Rock Nacional

Não morro de amores por este estilo musical feito em português e só conhecia esta banda de nome. Mas um dia, ao ver umas coisas no YouTube, dei com este vídeo e achei que a música não fica muito a dever ao que se faz nos países anglófonos.

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São Mamede de Infesta – cidade com ares de aldeia

Fica pegada ao Porto, apenas uma estrada (Estrada da Circunvalação) separa estas duas cidades. Contudo, São Mamede de Infesta tem ares e espírito aldeãos. Aqui não há cimento ao alto, pelo contrário, até há muito arvoredo; aqui todos se conhecem, o que para mim é maçador, acostumada que estava ao anonimato das grandes cidades.

Embora tenha vindo aqui cair de pára-quedas (passo a expressão), já que o que tencionava era viver na cidade do Porto, simpatizo com São Mamede.

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Já tenho visto abaterem aqui umas quantas árvores, mas esta ficou, bela e frondosa, no meio de um cruzamento. 

Clique aqui para ver album de imagens de São Mamede.

Canção de Portugal

Esta é, para mim, a canção que representa o Portugal da transição do século XX para o século XXI. Representa um “Portugal-outro, mas bem conhecido, aquele que cada português transporta com uma obssessão e um temor sagrados nos seus confrontos com espelhos alheios”.


Por espelhos alheios posso tomar como exemplo a música pop ou fusion que se faz na Europa. É que nesta canção de 1993, os arranjos feitos por Dulce Pontes, Guilherme Inês e Ramón Galarza à melodia de Ferrer Trindade, conferiram-lhe excelência em contemporaneidade e internacionalidade. Prova disso é o uso que Hollywood e muitos cantores estrangeiros têm feito desta versão e não de outras.

Mas, no tempo da ditadura, a letra de Frederico de Brito não era do agrado dos da situação. Por isso, no YouTube, só se ouve a Amália Rodrigues a cantar um fado chamado “Solidão”, com a mesma melodia da “Canção do Mar” (ver aqui história desta canção).

O videoclip está muito bem concebido. O farol, o guia de homens de vida dura, como os que podemos ver nas tocantes cenas do filme de Leitão de Barros “Maria do Mar“. Também os penhascos do Cabo Espichel, alteando sobre a imensidão oceânica, dão a sensação de infinidade.

A silhueta solitária da cantora em trajes esvoçantes, acompanhada do perfil de um antigo morábito e do vôo da gaivota, sugerem viagens de ida, insinuam outros lugares e outros tempos.

Esta é a canção do nosso mar, o mar num apelo que se estende ao país inteiro a todo o povo, um povo antigo temperado a sal.

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Nota: Todas as citações são de Eduardo Lourenço, na sua obra “O Labirinto da Saudade”.

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Em Julho de 2013, num concerto no Odeon de Herodes Aticcus em Atenas, Dulce Pontes apresentou uma outra versão da “Canção do Mar”, igualmente pujante, igualmente bela (os aplausos confirmam as minhas palavras).

Peixe Congelado – A Menina Pescadinha

Há tempos, nas minha navegações pela Net, encontrei um artigo sobre a Menina Pescadinha. Era uma figura de desenhos animados que aparecia na televisão (antes do 25 de Abril), de propaganda ao peixe congelado.

Nos anos 60 do século passado, a população não estava habituada ao peixe congelado e, assim, havia que dar um incentivo através da publicidade (ver vídeo no Youtube). A publicidade da SAPP (entidade estatal que distribuia, pelo país e colónias, o peixe congelado) também abrangeu as crianças pois nas tabacarias e bancas de jornais, vendia-se um livrinho de histórias da Menina Pescadinha (impresso em 1967), de que ainda possuo um exemplar.

Pescadinha Para mais informações relacionadas com este tema, existem online dois artigos interessantes: um sobre Henrique Tenreiro e outro sobre a Docapesca.

De Hino a Hino

Nos anos 60 do século passado, altura em que só havia um canal de televisão, este não estava no ar 24 horas. Abria a emissão de manhã e terminava ao fim da noite. Assim, muito boa gente começava o seu dia ouvindo o antigo hino da RTP (ou música de abertura, já que era uma marcha inglesa chamada “Derby Day”) e terminava-o com o Hino Nacional no fecho da emissão.

Fleurette Tréfaut

As minhas recordações:

Nos meados dos anos 1980 decidi aprender Russo. Para tal inscrevi-me na Associação Portugal — URSS que ficava num prédio antigo à Lapa, em Lisboa. Falei com uma senhora que tratava dos assuntos administrativos. Desde logo ela despertou a minha curiosidade; tinha um sotaque estranho que eu, na minha ignorância inicial, julguei ser russo. O seu rosto austero e enrrugado, a simplicidade com que se vestia e a frugalidade nas palavras fizeram-me prescrutar repetidamente o olhar e o comportamento daquela mulher que achava misteriosa. Soube mais tarde o seu nome — Fleurette — e que o sotaque era francês. Isto intensificou mais as minhas conjecturas sobre essa mulher. Que diabo estava uma Francesa a fazer na Associação Portugal – URSS? Motivos políticos, em França? Estranho!

Frequentei a Associação durante três anos (o tempo que durou o curso) e de Fleurette nunca soube nada e nem jamais um sorriso lhe vi.

Há uns anos atrás, estava eu procurando alguma coisa de interesse na televisão, quando uma imagem na RTP2 atraiu a minha atenção. Disse para mim: “conheço esta cara”. Fiquei a ver o programa para descobrir de que se tratava, e quem era aquele rosto familiar.

Logo a voz, o sotaque, o olhar inexpressivo reavivaram as minhas memórias de vinte anos atrás. Era Fleurette, aquela figura misteriosa que tentava passar despercebida e que agora estava ali, exposta na TV, aos olhos de todos.

Quase todas as minhas conjecturas foram esclarecidas. Digo quase todas porque, até mesmo para com o filho — o autor do documentário, ela foi frequentemente lacónica.

O documentário:

O que afinal estava a passar na televisão, era um documentário do realizador Sérgio Tréfaut sobre sua mãe — “Fleurette” (2002). Eis a sinopse:

“Será que conhecemos as pessoas que nos são próximas? Será que as queremos conhecer? Será que elas querem que nós as conheçamos? Fleurette é um documentário autobiográfico onde o realizador interroga os pais e o irmão, em complexa estratégia de auto-descoberta. Atravessando grande parte do séc. XX, da França dos anos 40, ao Portugal da Revolução de Abril, passando pela ditadura brasileira, é também uma narrativa comovida sobre as contradições da estrutura familiar, no quadro mais vasto da história recente.”

Fiquei boqueaberta e também chocada com o que ouvi, tanto por parte de Fleurette como do seu filho mais velho. Que mundo de vivências aquela mulher escondia; e escondia dos filhos, de todos enfim, a sua turbulenta história.

No blog da disciplina “Documentarismo e Antropologia Visual” do Departamento de Línguas, Comunicação e Artes da FCHS/Ualg lê-se o seguinte:

“(…) o documentário “ Fleurette”, onde ele vai proporcionar uma viagem à memória da sua mãe, na tentativa de montar um “puzzle” que o tempo fez questão de baralhar.

(…) Sérgio Tréfaut procura compreender o passado atribulado da mãe, e desvendar os obstáculos que Fleurette sente aos 79 anos, a inquéritos sobre o seu passado. Mas vai ao longo do filme desvendando, pouco a pouco, acontecimentos secretos e revelando outra vida.

(…) além do testemunho da sua mãe, o realizador interroga o pai e o irmão, em complexa estratégia de auto-descoberta, acaba por passar as fronteiras da ficção, lançando um belíssimo olhar sobre uma história familiar.

Esta busca da compreensão das suas origens através da memória da sua mãe, que por vezes, é dividida através do testemunho do seu irmão, é de facto, um dado importante, pois será apresentada toda a história de uma família, (…).

A própria personagem de Fleurette, na qual se centraliza toda a narração do discurso autobiográfico, transmite ao longo do filme diversos pontos de melancolia e mesmo de tristeza. Na verdade há uma dor imensa ao desenterrar toda uma história que, embora vivida com alegria, foi no fundo uma história de vida muito conturbada, que ela fez questão de apagar.

O documentário apresenta uma narrativa linear, na qual a passagem do tempo é estabelecida através do recorrer dos factos históricos: a 2ª Guerra Mundial, a libertação de França, a Revolução de Abril e também das sucessivas fotografias em forma gradual até chegar à geração do realizador. Pois atravessa grande parte do século XX, da França dos anos 40, com fragmentos de histórias de amores e desamores, de colaboracionismo e neutralidade, ao Portugal da Revolução de Abril, é também um registo de uma narrativa comovente sobre as contradições de estrutura familiar, no quadro mais vasto da história recente.”

Também fiquei a saber que Sérgio e seus dois irmãos são igualmente filhos do escritor Miguel Urbano Rodrigues.

Mas muito ficou por esclarecer, porque Fleurette, para frustação e revolta dos filhos, deixou obstinadamente por revelar as razões de muitos dos factos da sua vida.

Tal como para mim vinte anos antes, Fleurette foi e continuou a ser uma mulher misteriosa.