Doçi Papiaçam di Macau

FILIPA QUEIROZ


Também chamado de crioulo macaense, macaísta chapado ou simplesmente patuá. É uma língua de base portuguesa originada em Macau, por volta do século XVI. Segundo o Wikipédia,  hoje em dia já poucos milhares dominam a língua, ela que em tempos terá sido muito importante para a comunicação entre macaenses, chineses e portugueses. Como? Misturando influências de ambas. Mais uma pitadinha de malaio ali, outra de cingalês ali, inglês, tailandês, espanhol e algumas borrifadelas de línguas indianas. O resultado fala por si:

Masqui ramendá unga tosco bote,
Largado na mar co ónda picánte,
Quim pôde isquecê acunga dote
Qui já dá vôs grandura di gigánte!
Pa quim buscá luz, vôs sandê candia;
Quim passá fome, vêm aqui têm pám;
Pa quim ta fuzi, susto ventania,
Vôs dá teto co paz na coraçám.

O poema é de José dos Santos Ferreira, um dos poucos poetas locais a utilizar o…

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O Prémio de um Belo Livro

UNESCO premeia o “coração árabe” do poeta e ensaísta português Adalberto Alves – Cultura – PUBLICO.PT.

Acabei há dias de ler, pela segunda vez, este belo livro que adquiri em 1992.

De todos os poemas o meu favorito é um (o qual já conhecia de uma canção do Janita Salomé) de autoria do poeta escalabitano Ibn Sara que aqui transcrevo:

 

A Brisa e a Chuva

Buscas consolo no sopro do vento?
Em sua aragem há perfume e almíscar
Que até ti vem, ataviado de aromas,
Fiel mensageiro da tua doce amada.

O ar prova os trajes das nuvens
E escolhe um manto negro.
Uma nuvem prenhe de chuva
Acena ao jardim, saúda-o
Vertendo lágrimas nas risonhas flores.

A terra apressa a nuvem
Para que lhe acabe o manto.
E a nuvem com uma mão
Entretece fios da chuva
E com a outra vaio-o enfeitando
Com um bordado a flores.

 

De entre as muitas passagens, de grande beleza, nos três primeiros capítulos, ressalvo uma do primeiro (o mais pessoal) que me tocou particularmente:

“(…) essa gente, que nos antecedeu, de que falam as lendas, quase sempre de amores infelizes, como infeliz foi o destino que a marcou, e que, todavia, está bem presente no património mais caro que temos, a língua portuguesa.”

E eu acrescento: oxalá assim seja por muitos séculos.