Hotel Francfort – Rossio (Lisboa)

Sendo eu natural de Lisboa, tendo vivido lá grande parte da minha vida e, apesar de a ter trocado pelo Porto, não deixo de estar a par do que por lá se passa e de me preocupar pelo seu património. Também, graças à minha mãe, conheço pequenos e esquecidos recantos de interesse histórico, muitos deles desaparecidos ou escondidos. Existem ainda aqueles que estão ligados a momentos felizes da minha infância, como é o caso do Hotel Francfort (não confundir com o Hotel Francfort da Rua Augusta, com entrada pela Rua de Santa Justa).

Durante anos e anos não encontrei informação alguma sobre este hotel. Contactei inclusive a empresa proprietária daquele imóvel (informação que obti na Net) — Hotéis Alexandre de Almeida — que, embora me tenham respondido, nada soberam me informar sobre o assunto.

Há pouco tempo encontrei uma gravura do hotel no blog de Marina Tavares Dias, mas nenhuma informação.

Mais tarde escrevi um texto para o blog Cidadania LX, acerca de elevadores “escondidos” de Lisboa, em que mencionava este hotel a propósito do seu elevador.

As recordações que tenho de visitas que fiz a esse hotel são da infância — década de 1960. Por isso elas estão muito nubladas e podem ter sido deturpadas com os anos. Contudo, o que me lembro deste hotel, dos finais do século XIX, era a sua sutornidade: recepção e corredores mal eluminados e quartos austeros. Mas havia dois lugares simpáticos: a sala de leitura tinha, junto às janelas que davam para a Praça da Figueira, duas escrivanhinhas duplas com canetas e papel timbrado; o elevador antigo, embora não tivesse nada de espectacular, era bonito. Apresento, em baixo, duas imagens, que encontrei na Net, de uma escrivaninha e de um elevador parecidos com o que existia no Hotel Francfort.

O tipo de escrivaninha do hotel era idêntico a este, mas com as partes metálicas cromadas.

Elevador alemão de 1907 idêntico ao do Hotel Francfort.

De vez em quando ia ao Google ver se havia mais alguma coisa sobre o Hotel Francfort do Rossio. Até que há poucos dias reconheci uma imagem cuja legenda dizia ser a entrada do nº 113 no Rossio:

Porta de entrada do Hotel Francfort (nº 113 no Rossio) tal como está actualmente.

Nunca poderia deixar de reconhecer aquela porta, de tanto a olhar anos a fio, sempre que por ali passava. Olhava o seu triste estado, repleta de restos de cartazes; pelo menos sempre assim a vi desde o seu encerramento após o 25 de Abril de 1974.

O artigo a que pertence esta imagem e uma outra que mostro mais abaixo, pertencem a um post do blog “Cidadania LX” que a seguir transcrevo:

URGENTE/ALERTA sobre edifício sito na Praça D. Pedro IV (ROSSIO) nº 113  

O medonho aspecto da entrada — quase 40 anos de abandono. (minha legenda)

Exmo. Senhor Presidente da CML
Dr. António Costa,
Exmo. Senhor Vereador do Urbanismo
Arq. Manuel Salgado

Vimos pelo presente alertar V.Exas. para o facto da porta deste prédio no Rossio continuar escancarada, pelo que poderá haver perigo iminente caso se registge invasão do seu interior, quer porque poderá acarretar actos de vandalismo, quer porque poderá descambar num incêndio, como aconteceu recentemente, aliás, com o prédio mesmo ao lado.

Como é possível esta situação? Negligência dos proprietários? Desleixo calculado e intensional?

Trata-se, como se sabe, do edifício da Pastelaria Suíça.

Achamos que É PRECISO QUE A CML TOME PROVIDÊNCIAS!

Na expectativa, subscrevemo-nos com os melhores cumprimentos

António Branco Almeida, Luís Marques da Silva e Fernando Jorge

http://cidadanialx.blogspot.pt/2012/06/urgentealerta-sobre-edificio-sito-na.html

Feliz, apesar de tudo, por finalmente alguém se dar conta daquele edifício e lhe ter aberto a porta, comentei este post.

Não se sabe ainda o destino que a Câmara Municipal de Lisboa ou os proprietários irão dar a este imóvel — espero que não tenhamos de esperar mais não sei quantas décadas.

Pela mesma altura, encontrei na Net mais uma imagem do Hotel Francfort (datada de 1950) no blog “Restos de Colecção“:

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11 comments on “Hotel Francfort – Rossio (Lisboa)

  1. Bodo FREUND diz:

    Tenho Interesse em saber quando os dois hotéis foram fundados ou designados pelo nome Francfort. Nao conheco relacoes antigas entre Lisboa ou Portugal com essa cidade alema. Frankfurt era importante antes da unificacao dos muitos Estados alemaes nos anos 1866/1871, depois o poder político se concentrou em Berlim. Em Frankfurt foi concluido no ano de 1871 o tratado de paz após a Guerra Franco-Alemanha. Será possível que o Hotel / os hotéis obtiveram os nomes já naquela altura?

    • L.Garcez diz:

      É emocionante este seu interesse. No passado existiam muitos hotéis “Francfort” em Portugal, pelo menos também no Porto e em Braga. Falo do Francfort do Rossio porque fui lá muitas vezes quando era criança. Foi inaugurado em 1898 e está fechado desde meados da década de 1970.
      Pus outro artigo sobre os hotéis aqui no blog, mas posso adiantar o link original que é de um outro blog de excelente qualidade, muito completo e ilustrado:
      http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/09/hoteis-francfort-em-lisboa.html
      Obrigada por visitar o meu blog e boa sorte nas suas pesquisas.

      • Bodo FREUND diz:

        Muito obrigado pela informacao quanto ao Hotel Francfort no Rossio. Fica assombroso que o hotel (e provavelmente o nome) sao apenas de 1898, quando Frankfurt tinha já perdido a funcao “ideal” para o espaco dos Estados alemaes inclusive a atual Áustria (que foi expulsa do conjunto numa guerra interna pela Prússia em 1866).
        O hotel do mesmo nome em Braga tinha inicialmente outro nome. No início do século XX o proprietário mudou porque o nome Francfort tinha prestígio por causa do famoso hotel em Lisboa. O hotel em Braga foi fechado há 4 anos aproximadamente.
        Nos anos 1960 existia um Hotel Francfort na Rua da Santa Justa, esquina à Rua Augusta, de qualidade média na altura, talvez sucessor do hotel no Rossio.
        Com os meus melhores cumrpimentos,

        Bodo Freund

      • L.Garcez diz:

        Fico contente por ter adquirido tantas informações que lhe interessam. Lamentavelmente ainda tenho poucos conhecimentos sobre a História da Europa antes da Primeira Guerra Mundial. Sou fascinada por hotéis desta e época porque estão ligados a dois temas que me agradam: a Arquitectura do Ferro do século XIX e o hábito de frequentar termas.
        Tive muito prazer em conhecê-lo e desejo-lhe sucesso nas suas pesquisas.

      • vilela diz:

        Se me permitem eu tambem estive algumas vezes no hotel Francfort. Numa das fotografias aparece o Francfort hotel do Rossio. Nao é o Hotel Francfort. Estes dois hoteis pertenciam a dois irmaos. Um Pos Francfort hotel para provocar o outro. Os donos do Hotel Francfort eram meus padrinhos de batisado. Isto em 1953 e eu fui visità los nos anos 60 e 70 a Lisboa. Andei a semana passada à procura do dito lugar, nao o encontrei … Serà o de Santa Justa ?

      • L.Garcez diz:

        Interessante a sua história. Obrigada. Eu também estive muitas vezes neste hotel nos anos 60. Hospedava-se lá um amigo da família. Refiro ao Francfort do Rossio. Lembro-me que era um pouco soturno mas tinha um elevador bonito e uma sala de leitura interessante. Aquilo fechou em 1974 e está abandonado desde então. Passa despercebido — é uma porta estreita e degradada junto de uma loja de confecções e perto da “Suiça”. Soube que, numa certa altura, os proprietários eram o grupo Alexandre de Almeida e nada mais sei.

    • HANEL diz:

      Li o seu comentário sobre o “Hotel Francfort” em Braga, vi que tem informações sobre a origem do nome, gostava de saber onde obteve essa informação. Será que me pode divulgar?? Para poder complementar num trabalho de pesquisa. Obrigada.
      Com os meus melhores cumprimentos.

      • L.Garcez diz:

        Desculpe só responder agora. Tudo o que sei do Hotel Francfortdo Rossio é não só experiência própria, como também alguma pesquisa isolada na NET. Mas sobretudo é no blog “CidadaniaLX” que vai poder encontrar mais dados.

  2. Pamela Azevedo diz:

    Gostei de ler os comentários acerca deste Hotel que tem para mim verdadeiras saudades. Fiquei no hotel em 1960 quando vim passar férias para Portugal pela primeira vez. Vim com duas amigas e sem reserva de hotel. O Hotel Francfort-Rossio foi recomendado pela receptionista do Aeroporto. Fiquei encantada com o “old-world charm” que descobri nele. E não só no Hotel mas na própria cidade. Lembra-me do elevador arte nouveau que, salvo erro – porque posso estar a confundi-lo com o da grande armazem, Paris em Lisboa – tinha um operador permanente, O quarto era espartano e sem casa de banho mas perfeitamente adequado por raparigas da nossa idade. Lembro-me das retretes que eram super compridos e com uma prateleira no meio! e a claraboia um tanto desconcertante por cima. E lembro-me da casa de jantar onde um senhor da idade avançada levantava o copo de vinho cada vez que me via.

    Ao levantar na primeira manhã, fui à janela do quarto . Fiquei deslumbrada: sol a brilhar; ambiente límpido e cor-da-rosa;, mulheres a apregoarem com cestos da peixe na cabeça e uma carroça e burro por baixo da minha janela, em pleno centro da cidade. Paraiso!!

    Inacreditável que ninguem aproveita este espaço na zona mais privilegiada da Baixa.

    • L.Garcez diz:

      Estou-lhe imensamente grata pelo comentário. ADOREI! Eu ia muitas vezes em criança (anos 60) àquele hotel onde se alojavaum amigo da família. Do que melhor me lembro é do elevador, não me recordo se tinha ascensorista, mas já não me lembrava de que era Art Nouveau. O quartos eram soturnos e com mobiliário pesado. Essa das casas de banho não sabia. Também me lembro das escrivaninhas Art Deco da sala de leitura.
      Pois é, essa cidade quase aldeia, era a Lisboa da minha infância.

  3. Bodo FREUND diz:

    As minhas informacoes quanto ao hotel Francfort em Braga foram fornecidos por um amigo que contatou (em 2014?) pessoas na casa do antigo hotel

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